Prólogo



Eu podia senti-la.

O choro da pequena criança misturava-se ao rugido da tempestade que devastava a cidade de Londres naquela noite escura e fria. A chuva caía implacável, como se o céu refletisse a tristeza profunda que se desenrolava ali, sob a penumbra dos becos e sombras das luzes fracas dos postes. Seus braços, trêmulos e frágeis, me envolviam, apertando-me como se quisesse gravar a sensação da minha presença para sempre em sua pele. O toque hesitante dos seus dedos deslizava pelo alto da minha cabeça, enquanto seus olhos, marejados, desenhavam cada traço do meu rosto com uma dor silenciosa e amarga.

Sua voz, quase inaudível, lutava contra os soluços que subiam pela sua garganta, entoando uma canção de ninar que parecia vir de um lugar distante no tempo, como se ecoasse de uma memória há muito esquecida. O som doce e melancólico se perdia na chuva, mas o ritmo familiar permanecia. Seus dedos, tão frios quanto a noite que nos envolvia, deslizavam pela minha pele, deixando rastros de gelo e desespero. Eu podia sentir o tremor em seu corpo enquanto se aconchegava mais perto, buscando refúgio no calor frágil do meu pequeno corpo, como se aquele fosse o último gesto de amor que poderia me oferecer.

– Emma, me perdoa, minha menina... – sua voz falhou, engolida por uma dor que ela tentava conter. – Eu não queria que as coisas chegassem a esse ponto... – Seus olhos desviaram para o chão, como se estivessem carregados de um peso insuportável. – Mas eu não tenho condições de cuidar de você, não depois do que aconteceu...

As palavras ficaram no ar, pesadas e amargas, como se aquele momento estivesse preso entre o presente e um passado que nunca seria superado. Com mãos trêmulas, ela tirou de seu pescoço um colar delicado, uma pequena borboleta de prata que refletia a luz das lâmpadas de rua. Seus dedos hesitaram por um momento antes de colocar a joia na palma da minha mão, fechando meus dedos ao redor do pingente frio. Seus olhos se demoraram mais uma vez no meu rosto, como se quisesse gravar cada detalhe na memória antes de desaparecer.

Ela se levantou, seus passos ecoando na calçada molhada indo direto para uma grande porta batendo várias e várias vezes, mas ela não espera ninguém atender, a sua silhueta desaparecendo na escuridão. A cada passo, o vazio crescia. Eu olhei para o colar em minhas mãos, o único vestígio de quem ela era, de quem eu era para ela.

Então, no meio daquela tempestade devastadora, eu fiquei sozinha.


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